OS NETOS DE VOVÓ BENEDITA

Sentado no chão, eu ficava olhando aquele armário com portas enormes, feito de pura madeira trabalhada, tinha uma cor estranha, quase preto, vovó dizia que tinha pertencido a um coronel dono de muitas fazendas no interior de São Paulo. Duas janelas de vidro, já com sinais de velhice, possibilitava ver louças, utensílios, raízes secas e outras coisas que vovó utilizava para fazer suas mandingas e curar aquele monte de gente que a procurava todos os dias. Sabe….. nos meus nove anos de vida, não me lembro de ver outra pessoa abrir aquele armário, que não fosse a vovó Benedita. Minha prima Luiza já tinha dezesseis anos e ajudava vovó todo dia a receber as pessoas, eu achava ela meio chata porque ficava cantando uma música estranha enquanto fumaçava a casa todinha, até o casal de gatos rajados caiam no sono depois de todo aquele fumacê, também pudera né?……

Lá pelas nove da manhã, Luiza abria a tramela da janela rangente de duas folhas que iam até o teto, e eu podia ver aquela gentarada esperando do lado de fora. Sentada num toco de amoreira, vovó recebia um por um daquela gente toda, conversava com todos, enquanto Luiza que não desgrudava do ladinho dela, ia misturando coisas, socando no pilão, e depois punha toda aquela mistura num saquinho de pão, e dava para a pessoa levar. Naquela época eu não entendia o que vovó fazia, e muitas das vezes me perdia em pensamentos brincando com os gatos preguiçosos, que corriam assustados quando vovó batia a bengala no chão, e fazia sinal para que eu ficasse quieto. Vovó como ela mesma dizia, apesar de pobre, era uma mulher letrada, tinha estudado em escola de freiras, super prendada, tocava bandolim aos finais de semana. Bem….. o tempo foi passando, vovó mantinha sua rotina, e eu fui crescendo e compreendendo melhor a missão daquela vovozinha de cabelos brancos e sorriso ingênuo.

Um certo dia para nossa tristeza, vovó nos deixou e voltou para sua casa na terra do nosso pai Olorum. Era uma Quarta-feira do mês de Agosto, havia passado duas semanas do desencarne da vovó, e Luiza como de costume, abriu a janela rangente de duas folhas, e lá estava o povo esperando para ser atendido. Durante uns dez minutos, Luiza permaneceu em pé observando a fila de pessoas do outro lado da cerca de bambu, e pela primeira vez a vi sorrir, momento em que colocou um lenço na cabeça, sentou-se no toco de madeira e falou:

– Fique do meu lado, meu primo! Estamos prontos!

– Tome, fique com a chave do armário grande….. agora ela é sua.

– Vamos continuar o trabalho da vovó.

Meu coração bateu forte, e a falta da velhinha de cabelos brancos, fez eu sentir uma tristeza repentina. Tomei então meu lugar ao lado de Luiza, e não consegui conter as lágrimas ao ver que sentado no chão de tijolo vermelho, meu filho de cinco anos brincava descontraído com dois gatinhos rajados.

Adorei as Almas meu querido Pai João!

Por: Wilson de Omulu

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OS DOIS LADOS DA MOEDA

Havia passado uma semana, e lá estávamos novamente aguardando a gira do dia. Sentados no banco largo de madeira de lei,  impossível não notar os olhares inquietos vasculhando o ambiente como que procurando algo no invisível. A gira de Exu havia sido anunciada com antecedência, e como de costume a casa ficava cheia nesse dia.

Diferentemente da gira anterior, havia um  clima festivo, predominando o vermelho e o preto na decoração escolhida e arrumada nos menores detalhes, inclusive destacava-se o colorido do balcão de frutas e bebidas.

O relógio marcava vinte horas, e depois de vários pontos cantados com mestria, os Exus subiram e completaram o ambiente com suas danças, movimentos sincronizados e gargalhadas, transformando aquele momento num instante de pura magia. Sr. Tranca Ruas estava sentado em uma almofada, e enquanto revezava um charuto com um copo de whisky, conversava de forma amigável com as pessoas a sua volta, rindo alto muitas vezes, talvez das perguntas ingênuas que lhe faziam. Foi nesse momento que por impulso pedi a Ele que falasse sobre a falta de tolerância nos diversos setores, exatamente o tema desenvolvido pelos Pretos Velhos na semana anterior, Ele ficou sério e com o charuto no canto da boca disse sem pestanejar:

– Tem muita gente que pode falar sobre isso!  Prefiro falar sobre intolerância!

E  gargalhou diante da minha surpresa. Depois de me chamar por um apelido de infância que prefiro omitir, Ele continuou:

– O homem em sua essência possui a capacidade de alterar seus sentimentos de um extremo ao outro, em imediata resposta a emoção que esteja vivendo no momento. É uma questão de sobrevivência! Não sinta vergonha de sentir raiva, indignação, ódio, mágoa, blá, blá, blá…. Você nunca irá se livrar desses sentimentos ou deixaria de ser humano. Em vez de somente valorizar os chamados sentimentos positivos, deveriam ensinar mais as pessoas a ter controle sobre as emoções tidas como negativas. Muitas pessoas passam a vida toda correndo atrás de absolvição dos seus pecados, simplesmente porque as fizeram acreditar que são más, por sentirem algo que nem imaginam elas, fazem parte do equilíbrio emocional. Quando alguém tem controle emocional o que vocês falam? “essa pessoa é equilibrada!!!” não é isso?, pois bem, para que exista equilíbrio, é sempre necessário dois pesos, ou dois lados, ou duas forças.

A essa altura os ouvintes formavam um círculo ao redor do mestre das encruzilhadas, que completou o discurso:

– Desde que o mundo é mundo, uma minoria dominante sempre ditou as regras de conduta, levando o homem a algum tipo de conflito emocional, e uma prática muito antiga por parte de espertalhões, controlar as massas se utilizando para isso da fé e de dogmas incompreensíveis . Quer saber de uma coisa??…. não mudou nada!!…. tudo igual!!…. as pessoas continuam sendo levadas a acreditar que são impuras  por serem elas incapazes de bondade incondicional. Estimulam o medo do além túmulo, loteiam o paraíso como se fosse um lugar, e com isso conseguem manipular o ignorante desenvolvendo a cegueira espiritual. Manso e cego, segue o homem em busca de evolução, e diante de uma sociedade corrupta, violenta e cheia de injustiças, não se permite qualquer reação, se omite, e a cada sentimento que involuntariamente brota nos momentos de indignação, sufoca o grito, sente culpa….. por se achar tão longe de ser perfeito.

Depois de uma gargalhada extensa, Sr. Tranca Ruas estendeu-me o copo que segurava, e pediu que eu lhe servisse outra dose.

Laroiê Sr. Tranca Ruas das Encruzilhadas!

Por: Wilson de Omulu

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A LIBERDADE TROUXE A DIGNIDADE

Quando se vive numa senzala, perde-se a noção de tempo. O que mudava de um dia para o  outro era a crueldade do sol, o resto era sempre tudo igual, pular da rede com o cantar do galo, trabalhar feito doido, e ir dormir quando o sol se escondia no horizonte. A única referência do calendário que tínhamos, era quando as festas católicas aconteciam, e eram sempre preconizadas pelo missionário da vila do comércio.

Ainda estava escuro, quando minha nega me acordou aos trancos para que eu tirasse as sementes da chuva que anunciava cair a qualquer momento. Os relâmpagos eram freqüentes e permitia se ver no alto da colina a casa grande, imponente como que maestrando os rebentos vindo do céu. Protegi as sementes no barraco, voltei para minha rede, e até comentei com minha véia que havia uma energia estranha no ar.

Como de costume ao raiar do sol fomos todos ao campo, uns para a lida do gado, e outros para cuidar da lavoura. Em fila negreira íamos cantando em língua nativa, canções que em suas letras pediam aos Orixás força para viver. O dia transcorria normal, até a chegada do carro de boi trazendo a comida, foi quando o nego Matias falou que não havia movimentação na casa grande e que todos haviam ido para a vila. Isso era realmente muito estranho, pois nunca acontecera algo semelhante no passado. Mais estranho ainda foi que naquele dia pela manhã, ninguém tinha vindo juntar os grilhões na gente.

Já dava para se ver nossa sombra quase inteira, quando aos gritos padre Irineu nos contou que estávamos livres para sempre, a princesa havia libertado todos os negros do cativeiro.

13 de Maio de 1888, todos partiram. Sentado no toco de frente ao celeiro, somente uma luz podia se ver na casa grande, que sem imponência parecia ter perdido a majestade. Abri devagar a porta da varanda e pude ver que o sinhozinho sentado na cadeira de balanço, silencioso,  olhava fixo para a lua que brilhava na janela.

– Sinhozinho!!…. ele me olhou sem nada dizer.

– Quero dizer que eu e minha família vamos ficar na fazenda e continuar trabalhando.

Ele deu um sorriso e disse:

– Sendo assim, todas as terras ao redor do seu rancho serão agora suas, e para que possas cuidar do que é seu, terás a metade do dia, sendo que a outra metade irás trabalhar em minhas terras.

Rapidamente a notícia se espalhou e muitos irmãos voltaram para se assentar na fazenda que em pouco tempo se mostrou a mais próspera da região.

Quando se vive numa senzala, perde-se a noção de tempo. O que mudava de um dia para outro era a crueldade do sol, o resto era sempre tudo igual, pular da rede com o cantar do galo, trabalhar feito doido, e ir dormir quando o sol se escondia no horizonte…….. bem…….. isso agora era coisa do passado. Tínhamos dignidade e um pedaço de chão para plantar e cuidar dos filhos. Sentado no toco de frente à minha janela, posso ver as luzes da casa grande. Toda iluminada, parece dona do mundo, e mostra de novo toda sua majestade. Esse foi apenas o começo de uma nova história…….

Adorei as almas!!! Salve Pai João!!!

Por: Wilson de Omulu

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CHOCOLATE AMARGO

Era Domingo de Páscoa, então jamais vou esquecer aquele dia repleto de eventos que acabariam por mudar os rumos da minha vida. Eu olhava pela janela do automóvel enquanto o cenário ia mudando em alta velocidade trocando de cena a cada poste que passava sincronizado. Meus olhos estavam fixos, e aos poucos as imagens ficavam desfocadas me induzindo a uma sonolência incontrolável. Nessas condições a cabeça viaja no tempo e estimula pensamentos que normalmente não ousaríamos ter. Sentado neste banco do carro, dia de Páscoa, bem…… realmente isso ninguém merece. Queria mesmo era estar com meus filhos e rir ao vê-los lambusados de chocolate.

A freada brusca me trouxe a realidade e quando percebi já estávamos à frente ao cemitério municipal. Havia muitos outros veículos, e igualmente foram estacionando do nosso lado, misturando-se as muitas pessoas que circulavam por entre eles. Aquela cena me deu um certo alívio, afinal não era somente eu que em plena Páscoa, e obrigatoriamente de terno, tinha que ir a um sepultamento. O silêncio era total, e mesmo diante de toda movimentação frente ao portão de entrada, podia-se ouvir claramente o cantar dos passáros que sentados no galho da paineira, pareciam entoar uma música triste. Particularmente não gosto de enterros, então procurei ficar no fim do cortejo e assim evitar ficar muito próximo dos lamentos e tristeza dos parentes do falecido, tendo em vista que me emociono facilmente. Depois que orações foram rezadas em coro juntamente com o pároco local, as pessoas lançavam flores na sepultura a medida que iam se dispersando em direção a saída que não se podia ver de onde estávamos, pois ficava atrás de algumas árvores floridas.

Esperei que todos se retirassem, e da mesma forma como entrei, discretamente segui em direção a saída enquanto pensava nas muitas estórias de vida que ali naquele local estavam sepultadas. Quando alcancei a saída, o portão estava fechado e dois homens estranhos  vestindo capa e capuz, impediam aquelas pessoas de ganhar a rua. Sem compreender tamanha afronta, juntei-me aos gritos de protesto quando de repente um dos homens encapuzados gritou:

– Voltem aos seus lugares!!!…… Agora!!!

Indignado abri espaço com os cotovelos, e abordei o grandalhão exigindo que abrisse o portão, então ele deu uma gargalhada imensa e disse:

– Seja bem vindo ao reino do Exu Caveira!! Vá até o seu túmulo e sente-se lá, e aguarde até que seja chamado.

Não consigo imaginar quanto tempo se passou desde aquele Domingo de Páscoa, pois perdi a noção de tempo. A lembrança e saudade de minha família, por vezes quase me levou a loucura, mas continuo sentado aqui sob esta lápide, com meu terno impecável, sem compreender nada do que está acontecendo! Segundo os guardiões  que controlam o portão, devo aguardar minha vez…… mas…… minha vez de que???

Laroiê, Exu Caveira

Por: Wilson de Omulu

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PROSEANDO COM PAI GUINÉ

Bem me quer, mal me quer… era exatamente isso que eu estava pensando enquanto desfolhava uma margarida que tinha caido do congar. Do outro lado do terreiro, notei o velhinho de branco sentado num banquinho, e como eu, parecia estar concentrado no corte do fumo de corda que tinha nas mãos. Não resisti ao encanto daquela cena, então atravessei a sala e sentei-me frente ao querido paizinho, que me recebeu com um sorriso ingênuo.
Me diga paizinho, como saberei se um filho se preparou para poder no dia de hoje, fazer parte dos trabalhos?
– Se você perceber que existe alegria em seu rosto, então ele está preparado para o trabalho. A falta do brilho do sorriso, indica que esse filho deverá ficar entre os que serão ajudados.
Adorei as Almas, paizinho!!!
– Devem todos os filhos de santo, terem a responsabilidade de avaliar seus sentimentos, e somente se estiverem em verdadeira paz, deverão se apresentar para o trabalho na gira de Oxalá. Caso não estejam em harmonia consigo mesmos, devem se colocar em oração, e buscar no Pai a cura dos males da alma.
Adorei as Almas, Pai Guiné!!!
– Filha, na maioria das vezes, os sentimentos desenfreados são a causa primeira de males que inicialmente são nocivos apenas ao espírito, mas acabam se transferindo para a matéria em forma de doenças degenerativas e incuráveis.
Que sentimentos seriam esses, paizinho?
– A mágoa, o ódio, o rancor, o ciúmes, a inveja, são alguns dos piores sentimentos, além do mais, são devastadores e atingem muito mais quem os sente, e quando curados deixam cicatrizes profundas.
Mas Pai, sendo inevitável para nós encarnados, que em muitos momentos da nossa vida, venhamos a vivenciar tais sentimentos, onde buscar a cura para os males que deles advém?
– Na certeza da morte.
– A imortalidade do espírito, transpira no inconsciente, e vocês se esquecem que cada minuto da vida deveria ser celebrado, e não deveria haver tempo para sentimentos tão nefastos.
Entendi, paizinho! Deverei então buscar a alegria sempre, se quiser estar bem?
– Sim filha, a alegria por si só, cura a maioria das doenças, e posso lhe garantir que se você começar a olhar melhor a sua volta, não faltarão motivos e belezas para que a alegria de estar viva seja uma constante nessa sua existência.
E quando eu fraquejar, paizinho?
– Lembre-se que amanhã talvez não haja mais tempo, então aprenda a sorrir e aproveite com serenidade a dádiva que o Criador lhe deu.
Beijo-lhe as mãos, paizinho!

Saravá meu querido Pai Guiné.
Por: Cristina de Oxóssi

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A VERDADEIRA FORTUNA

Era a segunda noite que a insônia indesejável me fazia companhia, e para passar as horas, ler um livro ou assistir a TV, são opções a considerar. Naquela quarta-feira chuvosa, minha escolha foi a telinha, e navegar pelos muitos canais disponíveis em busca de algo que valesse a pena ver. Em outro momento talvez eu seria mais tolerante, mas naquela noite de vigília imposta, eu estava muito irritado. Lá pelas tantas, percebi que o Sr. Zé Pilintra estava sentado no outro extremo do sofá, e como sempre calmo, de pernas cruzadas curtia uma cigarrilha pendurada no canto da boca.
– Saravá meu paizinho, disse eu com a voz rouca…
Depois dele sorrir e gesticular, eu prossegui:
– Veja que coisa absurda meu paizinho…
– Onze canais estão ocupados por religiosos! Mudei rapidamente de canal e apontei o dedo para a TV:
– Veja este cara paizinho! Está pedindo grana discaradamente!
– Será que ninguém vê isso acontecendo!!! Que absurdo! Como fica isso???
Ele levanta os olhos para o teto, faz vários círculos de fumaça e continuou:
O ouro é sem dúvida a maior provação a que se pode submeter o homem.
A convivência com o dinheiro causa imensa preocupação naqueles que estão voltando a terra, pois sabem eles o poder que tem o dinheiro de comprometer toda uma evolução.
Por mais preparados que estejam os irmãos encarnados, não resistem muitos, aos encantos do dinheiro, e percorrem toda existência na carne, escravos do ouro. Enfeitiçados, esquecem dos compromissos de outrora, e cegos pela ganância, sem pudor e sem receio de se expor, lançam mão de todo tipo de artimanhas para conseguir acumular fortuna. Não quero com este depoimento dizer que não devas progredir e adquirir posses, mas afirmo que deveria o dinheiro, ganho de forma honesta, ser apenas mais um instrumento para o exercício da caridade e para o seu crescimento como filho de Deus.
Chegará o dia em que estarás de frente ao juiz celestial. Nada além de suas vestes terás, e Ele terá nas mãos uma lista de todas as suas obras, a qual representará a verdadeira fortuna acumulada por você ao longo da vida. Para aqueles que tiveram uma existência ofuscada pelo brilho do ouro, a lista estará em branco e nada mais restará senão retornar e começar tudo de novo.
– Mas… paizinho… e aquelas pessoas que doam parte de seus ganhos, passam dificuldades, e muitas vezes são enganadas???
Ele se levanta, dá um tapinha nos meus ombros e diz:
– Maninho… a responsabilidade maior é de quem toma, e não de quem doa…
Em seguida Ele foi embora, e o sono finalmente se apresentou…

Axé meu Pai Zé Pilintra!
Por: Wilson de Omulu

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O SUICIDA

Quando se toma uma decisão como essa, a cabeça parece adormecer e nenhum pensamento racional é criado, o mundo se torna insuportavelmente silencioso e dispensável. Enquanto caminho, consigo apenas ouvir meus próprios passos amassando a lama sob meus pés úmidos. Nesse momento nada me incomoda, não sinto dor, nem mágoas, nem medo, tão pouco remorsos, quero apenas chegar ao fim da rua e dar cabo a minha existência sem sentido. A solidão não me incomoda, afinal foi ela, única companheira nos momentos em que mais precisei de alguém ao meu lado. Não sei há quanto tempo estou caminhando, mas que importância tem o tempo para mim, se ninguém me espera e não existe futuro algum, ou a menor chance de que algo aconteça e mude meu destino. A garoa é persistente, escorre pela minha face disfarçando as lágrimas de fracasso. Ao longe uma luz tênue me chama atenção porque parece estar dançando ao compasso do vento molhado, esqueço por um instante a lama entre os dedos dos pés descalços e feridos, alcanço, e paro diante daquela vela colocada a margem da estrada vermelha. Uma bandeja com alimentos e uma vela que resiste a chuva, é a única fonte de luz do lugar, e torna quase invisível um homem vestido de preto e chapéu de aba larga, estático, apenas observando aquela oferenda, como que aguardando que algo inesperado aconteça. Ele me ignora, fica em silêncio e não me dirige sequer um único olhar. Sem me incomodar, retomo minha caminhada decidida, nada mais nesse mundo pode me amedrontar, então ignoro o homem que agora me acompanha de perto. Finalmente chego ao final da rua, e posso ver ao longe as luzes da cidade, que nessa hora certamente está dormindo. Basta agora mais um passo, para que de olhos fechados e com coragem, eu alcance as nuvens. O homem de preto está agora parado ao meu lado, mas continua a me ignorar.
Eu:
– O que você quer de mim?
– Por que me acompanhou?
– Nem tente!
– Nada que você possa fazer vai me impedir de saltar!
Ele:
– Não cabe a mim dissuadir você de nada que queira fazer.
– Devo apenas garantir seu direito de escolha.
– Se desistir, irei te acompanhar apenas até onde nos encontramos.
– Se saltar, irei te acompanhar durante a queda, e garantir que encontres o solo.
– Depois, te apresentarei às portas do inferno, onde seu algoz será sua própria consciência.

Então pela primeira vez Ele me olha bem nos olhos, e de repente comecei a sentir frio e fui tomado pelo medo de morrer. Saí então correndo, e só parei quando o ar me faltou. Com as duas mãos apoiadas sobre os joelhos, olhei para trás, e lá estava ao longe a luz da vela ainda acesa. Não consegui ver o homem de preto, mas eu sabia que ele estava lá….., de pé….., apenas observando…..

Laroiê Exu Tranca Ruas das Encruzilhadas!
Por: Wilson de Omulu

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