OS DOIS LADOS DA MOEDA

Havia passado uma semana, e lá estávamos novamente aguardando a gira do dia. Sentados no banco largo de madeira de lei,  impossível não notar os olhares inquietos vasculhando o ambiente como que procurando algo no invisível. A gira de Exu havia sido anunciada com antecedência, e como de costume a casa ficava cheia nesse dia.

Diferentemente da gira anterior, havia um  clima festivo, predominando o vermelho e o preto na decoração escolhida e arrumada nos menores detalhes, inclusive destacava-se o colorido do balcão de frutas e bebidas.

O relógio marcava vinte horas, e depois de vários pontos cantados com mestria, os Exus subiram e completaram o ambiente com suas danças, movimentos sincronizados e gargalhadas, transformando aquele momento num instante de pura magia. Sr. Tranca Ruas estava sentado em uma almofada, e enquanto revezava um charuto com um copo de whisky, conversava de forma amigável com as pessoas a sua volta, rindo alto muitas vezes, talvez das perguntas ingênuas que lhe faziam. Foi nesse momento que por impulso pedi a Ele que falasse sobre a falta de tolerância nos diversos setores, exatamente o tema desenvolvido pelos Pretos Velhos na semana anterior, Ele ficou sério e com o charuto no canto da boca disse sem pestanejar:

– Tem muita gente que pode falar sobre isso!  Prefiro falar sobre intolerância!

E  gargalhou diante da minha surpresa. Depois de me chamar por um apelido de infância que prefiro omitir, Ele continuou:

– O homem em sua essência possui a capacidade de alterar seus sentimentos de um extremo ao outro, em imediata resposta a emoção que esteja vivendo no momento. É uma questão de sobrevivência! Não sinta vergonha de sentir raiva, indignação, ódio, mágoa, blá, blá, blá…. Você nunca irá se livrar desses sentimentos ou deixaria de ser humano. Em vez de somente valorizar os chamados sentimentos positivos, deveriam ensinar mais as pessoas a ter controle sobre as emoções tidas como negativas. Muitas pessoas passam a vida toda correndo atrás de absolvição dos seus pecados, simplesmente porque as fizeram acreditar que são más, por sentirem algo que nem imaginam elas, fazem parte do equilíbrio emocional. Quando alguém tem controle emocional o que vocês falam? “essa pessoa é equilibrada!!!” não é isso?, pois bem, para que exista equilíbrio, é sempre necessário dois pesos, ou dois lados, ou duas forças.

A essa altura os ouvintes formavam um círculo ao redor do mestre das encruzilhadas, que completou o discurso:

– Desde que o mundo é mundo, uma minoria dominante sempre ditou as regras de conduta, levando o homem a algum tipo de conflito emocional, e uma prática muito antiga por parte de espertalhões, controlar as massas se utilizando para isso da fé e de dogmas incompreensíveis . Quer saber de uma coisa??…. não mudou nada!!…. tudo igual!!…. as pessoas continuam sendo levadas a acreditar que são impuras  por serem elas incapazes de bondade incondicional. Estimulam o medo do além túmulo, loteiam o paraíso como se fosse um lugar, e com isso conseguem manipular o ignorante desenvolvendo a cegueira espiritual. Manso e cego, segue o homem em busca de evolução, e diante de uma sociedade corrupta, violenta e cheia de injustiças, não se permite qualquer reação, se omite, e a cada sentimento que involuntariamente brota nos momentos de indignação, sufoca o grito, sente culpa….. por se achar tão longe de ser perfeito.

Depois de uma gargalhada extensa, Sr. Tranca Ruas estendeu-me o copo que segurava, e pediu que eu lhe servisse outra dose.

Laroiê Sr. Tranca Ruas das Encruzilhadas!

Por: Wilson de Omulu

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A LIBERDADE TROUXE A DIGNIDADE

Quando se vive numa senzala, perde-se a noção de tempo. O que mudava de um dia para o  outro era a crueldade do sol, o resto era sempre tudo igual, pular da rede com o cantar do galo, trabalhar feito doido, e ir dormir quando o sol se escondia no horizonte. A única referência do calendário que tínhamos, era quando as festas católicas aconteciam, e eram sempre preconizadas pelo missionário da vila do comércio.

Ainda estava escuro, quando minha nega me acordou aos trancos para que eu tirasse as sementes da chuva que anunciava cair a qualquer momento. Os relâmpagos eram freqüentes e permitia se ver no alto da colina a casa grande, imponente como que maestrando os rebentos vindo do céu. Protegi as sementes no barraco, voltei para minha rede, e até comentei com minha véia que havia uma energia estranha no ar.

Como de costume ao raiar do sol fomos todos ao campo, uns para a lida do gado, e outros para cuidar da lavoura. Em fila negreira íamos cantando em língua nativa, canções que em suas letras pediam aos Orixás força para viver. O dia transcorria normal, até a chegada do carro de boi trazendo a comida, foi quando o nego Matias falou que não havia movimentação na casa grande e que todos haviam ido para a vila. Isso era realmente muito estranho, pois nunca acontecera algo semelhante no passado. Mais estranho ainda foi que naquele dia pela manhã, ninguém tinha vindo juntar os grilhões na gente.

Já dava para se ver nossa sombra quase inteira, quando aos gritos padre Irineu nos contou que estávamos livres para sempre, a princesa havia libertado todos os negros do cativeiro.

13 de Maio de 1888, todos partiram. Sentado no toco de frente ao celeiro, somente uma luz podia se ver na casa grande, que sem imponência parecia ter perdido a majestade. Abri devagar a porta da varanda e pude ver que o sinhozinho sentado na cadeira de balanço, silencioso,  olhava fixo para a lua que brilhava na janela.

– Sinhozinho!!…. ele me olhou sem nada dizer.

– Quero dizer que eu e minha família vamos ficar na fazenda e continuar trabalhando.

Ele deu um sorriso e disse:

– Sendo assim, todas as terras ao redor do seu rancho serão agora suas, e para que possas cuidar do que é seu, terás a metade do dia, sendo que a outra metade irás trabalhar em minhas terras.

Rapidamente a notícia se espalhou e muitos irmãos voltaram para se assentar na fazenda que em pouco tempo se mostrou a mais próspera da região.

Quando se vive numa senzala, perde-se a noção de tempo. O que mudava de um dia para outro era a crueldade do sol, o resto era sempre tudo igual, pular da rede com o cantar do galo, trabalhar feito doido, e ir dormir quando o sol se escondia no horizonte…….. bem…….. isso agora era coisa do passado. Tínhamos dignidade e um pedaço de chão para plantar e cuidar dos filhos. Sentado no toco de frente à minha janela, posso ver as luzes da casa grande. Toda iluminada, parece dona do mundo, e mostra de novo toda sua majestade. Esse foi apenas o começo de uma nova história…….

Adorei as almas!!! Salve Pai João!!!

Por: Wilson de Omulu

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CHOCOLATE AMARGO

Era Domingo de Páscoa, então jamais vou esquecer aquele dia repleto de eventos que acabariam por mudar os rumos da minha vida. Eu olhava pela janela do automóvel enquanto o cenário ia mudando em alta velocidade trocando de cena a cada poste que passava sincronizado. Meus olhos estavam fixos, e aos poucos as imagens ficavam desfocadas me induzindo a uma sonolência incontrolável. Nessas condições a cabeça viaja no tempo e estimula pensamentos que normalmente não ousaríamos ter. Sentado neste banco do carro, dia de Páscoa, bem…… realmente isso ninguém merece. Queria mesmo era estar com meus filhos e rir ao vê-los lambusados de chocolate.

A freada brusca me trouxe a realidade e quando percebi já estávamos à frente ao cemitério municipal. Havia muitos outros veículos, e igualmente foram estacionando do nosso lado, misturando-se as muitas pessoas que circulavam por entre eles. Aquela cena me deu um certo alívio, afinal não era somente eu que em plena Páscoa, e obrigatoriamente de terno, tinha que ir a um sepultamento. O silêncio era total, e mesmo diante de toda movimentação frente ao portão de entrada, podia-se ouvir claramente o cantar dos passáros que sentados no galho da paineira, pareciam entoar uma música triste. Particularmente não gosto de enterros, então procurei ficar no fim do cortejo e assim evitar ficar muito próximo dos lamentos e tristeza dos parentes do falecido, tendo em vista que me emociono facilmente. Depois que orações foram rezadas em coro juntamente com o pároco local, as pessoas lançavam flores na sepultura a medida que iam se dispersando em direção a saída que não se podia ver de onde estávamos, pois ficava atrás de algumas árvores floridas.

Esperei que todos se retirassem, e da mesma forma como entrei, discretamente segui em direção a saída enquanto pensava nas muitas estórias de vida que ali naquele local estavam sepultadas. Quando alcancei a saída, o portão estava fechado e dois homens estranhos  vestindo capa e capuz, impediam aquelas pessoas de ganhar a rua. Sem compreender tamanha afronta, juntei-me aos gritos de protesto quando de repente um dos homens encapuzados gritou:

– Voltem aos seus lugares!!!…… Agora!!!

Indignado abri espaço com os cotovelos, e abordei o grandalhão exigindo que abrisse o portão, então ele deu uma gargalhada imensa e disse:

– Seja bem vindo ao reino do Exu Caveira!! Vá até o seu túmulo e sente-se lá, e aguarde até que seja chamado.

Não consigo imaginar quanto tempo se passou desde aquele Domingo de Páscoa, pois perdi a noção de tempo. A lembrança e saudade de minha família, por vezes quase me levou a loucura, mas continuo sentado aqui sob esta lápide, com meu terno impecável, sem compreender nada do que está acontecendo! Segundo os guardiões  que controlam o portão, devo aguardar minha vez…… mas…… minha vez de que???

Laroiê, Exu Caveira

Por: Wilson de Omulu

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PROSEANDO COM PAI GUINÉ

Bem me quer, mal me quer… era exatamente isso que eu estava pensando enquanto desfolhava uma margarida que tinha caido do congar. Do outro lado do terreiro, notei o velhinho de branco sentado num banquinho, e como eu, parecia estar concentrado no corte do fumo de corda que tinha nas mãos. Não resisti ao encanto daquela cena, então atravessei a sala e sentei-me frente ao querido paizinho, que me recebeu com um sorriso ingênuo.
Me diga paizinho, como saberei se um filho se preparou para poder no dia de hoje, fazer parte dos trabalhos?
– Se você perceber que existe alegria em seu rosto, então ele está preparado para o trabalho. A falta do brilho do sorriso, indica que esse filho deverá ficar entre os que serão ajudados.
Adorei as Almas, paizinho!!!
– Devem todos os filhos de santo, terem a responsabilidade de avaliar seus sentimentos, e somente se estiverem em verdadeira paz, deverão se apresentar para o trabalho na gira de Oxalá. Caso não estejam em harmonia consigo mesmos, devem se colocar em oração, e buscar no Pai a cura dos males da alma.
Adorei as Almas, Pai Guiné!!!
– Filha, na maioria das vezes, os sentimentos desenfreados são a causa primeira de males que inicialmente são nocivos apenas ao espírito, mas acabam se transferindo para a matéria em forma de doenças degenerativas e incuráveis.
Que sentimentos seriam esses, paizinho?
– A mágoa, o ódio, o rancor, o ciúmes, a inveja, são alguns dos piores sentimentos, além do mais, são devastadores e atingem muito mais quem os sente, e quando curados deixam cicatrizes profundas.
Mas Pai, sendo inevitável para nós encarnados, que em muitos momentos da nossa vida, venhamos a vivenciar tais sentimentos, onde buscar a cura para os males que deles advém?
– Na certeza da morte.
– A imortalidade do espírito, transpira no inconsciente, e vocês se esquecem que cada minuto da vida deveria ser celebrado, e não deveria haver tempo para sentimentos tão nefastos.
Entendi, paizinho! Deverei então buscar a alegria sempre, se quiser estar bem?
– Sim filha, a alegria por si só, cura a maioria das doenças, e posso lhe garantir que se você começar a olhar melhor a sua volta, não faltarão motivos e belezas para que a alegria de estar viva seja uma constante nessa sua existência.
E quando eu fraquejar, paizinho?
– Lembre-se que amanhã talvez não haja mais tempo, então aprenda a sorrir e aproveite com serenidade a dádiva que o Criador lhe deu.
Beijo-lhe as mãos, paizinho!

Saravá meu querido Pai Guiné.
Por: Cristina de Oxóssi

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A VERDADEIRA FORTUNA

Era a segunda noite que a insônia indesejável me fazia companhia, e para passar as horas, ler um livro ou assistir a TV, são opções a considerar. Naquela quarta-feira chuvosa, minha escolha foi a telinha, e navegar pelos muitos canais disponíveis em busca de algo que valesse a pena ver. Em outro momento talvez eu seria mais tolerante, mas naquela noite de vigília imposta, eu estava muito irritado. Lá pelas tantas, percebi que o Sr. Zé Pilintra estava sentado no outro extremo do sofá, e como sempre calmo, de pernas cruzadas curtia uma cigarrilha pendurada no canto da boca.
– Saravá meu paizinho, disse eu com a voz rouca…
Depois dele sorrir e gesticular, eu prossegui:
– Veja que coisa absurda meu paizinho…
– Onze canais estão ocupados por religiosos! Mudei rapidamente de canal e apontei o dedo para a TV:
– Veja este cara paizinho! Está pedindo grana discaradamente!
– Será que ninguém vê isso acontecendo!!! Que absurdo! Como fica isso???
Ele levanta os olhos para o teto, faz vários círculos de fumaça e continuou:
O ouro é sem dúvida a maior provação a que se pode submeter o homem.
A convivência com o dinheiro causa imensa preocupação naqueles que estão voltando a terra, pois sabem eles o poder que tem o dinheiro de comprometer toda uma evolução.
Por mais preparados que estejam os irmãos encarnados, não resistem muitos, aos encantos do dinheiro, e percorrem toda existência na carne, escravos do ouro. Enfeitiçados, esquecem dos compromissos de outrora, e cegos pela ganância, sem pudor e sem receio de se expor, lançam mão de todo tipo de artimanhas para conseguir acumular fortuna. Não quero com este depoimento dizer que não devas progredir e adquirir posses, mas afirmo que deveria o dinheiro, ganho de forma honesta, ser apenas mais um instrumento para o exercício da caridade e para o seu crescimento como filho de Deus.
Chegará o dia em que estarás de frente ao juiz celestial. Nada além de suas vestes terás, e Ele terá nas mãos uma lista de todas as suas obras, a qual representará a verdadeira fortuna acumulada por você ao longo da vida. Para aqueles que tiveram uma existência ofuscada pelo brilho do ouro, a lista estará em branco e nada mais restará senão retornar e começar tudo de novo.
– Mas… paizinho… e aquelas pessoas que doam parte de seus ganhos, passam dificuldades, e muitas vezes são enganadas???
Ele se levanta, dá um tapinha nos meus ombros e diz:
– Maninho… a responsabilidade maior é de quem toma, e não de quem doa…
Em seguida Ele foi embora, e o sono finalmente se apresentou…

Axé meu Pai Zé Pilintra!
Por: Wilson de Omulu

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O SUICIDA

Quando se toma uma decisão como essa, a cabeça parece adormecer e nenhum pensamento racional é criado, o mundo se torna insuportavelmente silencioso e dispensável. Enquanto caminho, consigo apenas ouvir meus próprios passos amassando a lama sob meus pés úmidos. Nesse momento nada me incomoda, não sinto dor, nem mágoas, nem medo, tão pouco remorsos, quero apenas chegar ao fim da rua e dar cabo a minha existência sem sentido. A solidão não me incomoda, afinal foi ela, única companheira nos momentos em que mais precisei de alguém ao meu lado. Não sei há quanto tempo estou caminhando, mas que importância tem o tempo para mim, se ninguém me espera e não existe futuro algum, ou a menor chance de que algo aconteça e mude meu destino. A garoa é persistente, escorre pela minha face disfarçando as lágrimas de fracasso. Ao longe uma luz tênue me chama atenção porque parece estar dançando ao compasso do vento molhado, esqueço por um instante a lama entre os dedos dos pés descalços e feridos, alcanço, e paro diante daquela vela colocada a margem da estrada vermelha. Uma bandeja com alimentos e uma vela que resiste a chuva, é a única fonte de luz do lugar, e torna quase invisível um homem vestido de preto e chapéu de aba larga, estático, apenas observando aquela oferenda, como que aguardando que algo inesperado aconteça. Ele me ignora, fica em silêncio e não me dirige sequer um único olhar. Sem me incomodar, retomo minha caminhada decidida, nada mais nesse mundo pode me amedrontar, então ignoro o homem que agora me acompanha de perto. Finalmente chego ao final da rua, e posso ver ao longe as luzes da cidade, que nessa hora certamente está dormindo. Basta agora mais um passo, para que de olhos fechados e com coragem, eu alcance as nuvens. O homem de preto está agora parado ao meu lado, mas continua a me ignorar.
Eu:
– O que você quer de mim?
– Por que me acompanhou?
– Nem tente!
– Nada que você possa fazer vai me impedir de saltar!
Ele:
– Não cabe a mim dissuadir você de nada que queira fazer.
– Devo apenas garantir seu direito de escolha.
– Se desistir, irei te acompanhar apenas até onde nos encontramos.
– Se saltar, irei te acompanhar durante a queda, e garantir que encontres o solo.
– Depois, te apresentarei às portas do inferno, onde seu algoz será sua própria consciência.

Então pela primeira vez Ele me olha bem nos olhos, e de repente comecei a sentir frio e fui tomado pelo medo de morrer. Saí então correndo, e só parei quando o ar me faltou. Com as duas mãos apoiadas sobre os joelhos, olhei para trás, e lá estava ao longe a luz da vela ainda acesa. Não consegui ver o homem de preto, mas eu sabia que ele estava lá….., de pé….., apenas observando…..

Laroiê Exu Tranca Ruas das Encruzilhadas!
Por: Wilson de Omulu

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A ESTÓRIA DE UM EXU, AMIGO MEU

Há alguns séculos atrás, eu fazia parte de uma família muito humilde, porém com grande sabedoria. Isso fazia com que as pessoas do pequeno vilarejo e amigos dos meus pais, tivessem muita inveja da gente. Sentimento terrível de se possuir, uma vez que envenena muito mais quem o possui, mas como ia dizendo, a sabedoria magística deles era incompatível para a época. Eram tidos como bruxos, porque através dos benzimentos ajudavam muita gente, mas a maioria preconceituosa, e formada por religiosos ortodoxos, eram contra essa prática, pois achavam que meus pais poderiam fazer mal a eles ou aos seus filhos e familiares. Para mim era incompreensível a persistência dos meus pais. Até que um dia, foram assassinados de forma cruel, e eu pequeno com apenas cinco anos de idade, passei a morar com meus tios maternos e duas primas esquisitas. Alí começava uma nova vida, repleta de descobertas e intolerâncias, caminho pelo qual passei e me lembro como se fosse hoje. Apesar da tenra idade, havia aprendido com meus pais muitas coisas, na verdade herdei o dom da cura, só que não sabia.
Meus tios, então passaram a ser meus tutores, e tomavam conta para que o bruxinho, era como me chamavam, não desenvolvesse seus dotes de magia, para isso me obrigavam a estudar a bíblia todos os dias. Na verdade meus tios nunca se preocuparam em disfarçar seu desinteresse por mim. Eu sentia uma chama arder dentro do meu peito, como que pedindo para sair, mas eu era pequeno para compreender que meu espírito sobrepunha a matéria e como um livro antigo, acumulava a sabedoria intuitiva milenar, que eu não sabia ainda como demonstrar. Fui crescendo, e a revelia dos interesses, o meu lado bruxo foi aparecendo para todos, claro que minha tia sempre muito carinhosa e amável comigo, me protegia do antagonismo do meu tio. Muitas coisas ela sabia que eu fazia, mas não contava a ele, se contasse ela seria banida da igreja, e aí seria o caos para mim e para ela.
Aprendi a conviver com minhas duas primas mais velhas, e fui crescendo, ficando mais maduro, nunca perdendo a oportunidade de pesquisar sobre bruxaria através da pouca literatura que meus pais haviam deixado disponível, afinal aquilo era minha história de vida. Com o passar do tempo a convivência familiar ficou suportável e foi com uma de minhas primas, exatamente a mais velha das duas, que nasceu um sentimento mútuo, capaz de nos unir na mais confidente cumplicidade. Seu nome era Vera, Vera de veracidade, palavra essa muito forte para a época. Jamais a esqueci. Era uma moça exemplar, muito bonita, cabelos longos e negros, olhos amendoados, lábios carnudos, de corpo escultural, não era pra menos a enorme fila de pretendentes, mas o nosso amor era focado em nós mesmos, e imune a todo tipo de interferência. Éramos felizes assim, da nossa maneira e minha tia se orgulhava do nosso relacionamento, mas o que não sabíamos é que nossa felicidade despertara o ódio de minha outra prima, Raquel. Moça lindíssima, era também muito inteligente e estudiosa, mas não gostava nada das pesquisas sobre bruxaria que eu e Vera fazíamos, provavelmente porque a Vera tinha se afastado um pouco dela ou por achar que iríamos fazer algo de mau contra ela. Contrariada deixou que o medo a tornasse muito amarga, medo esse sem sentido, porque a nossa bruxaria, nada mais era que explorar a magia dos elementos da natureza. Com o passar do tempo envenenada pelo próprio ódio, Raquel decidiu procurar um feiticeiro eremita muito famoso do lugarejo, em busca de proteção e esclarecimento sobre exatamente o que eu e Vera estávamos fazendo. Percebendo a fragilidade de Raquel o Feiticeiro a envenenou ainda mais contra nós, e foi então que um trabalho de magia negra foi realizado.
Nesse momento da nossa vida, era comum todos os dias uma pequena fila de pessoas em nossa porta em busca de ajuda, e notando a total indiferença de Raquel, por vezes explicamos a ela o objetivo maior do nosso trabalho espiritual.
O trabalho era árduo, e minha amada Vera começou a ficar muito angustiada, muito triste, começou perder peso e acabou ficando de cama. Minha sogra ficou muito preocupada quando viu sua filha assim, tão fraca, frágil e debilitada. Com o passar dos dias não caminhava mais, tínhamos que colocar o alimento em sua boca, não falava mais, e o desespero foi tomando conta de mim em apenas imaginar a possibilidade de perdê-la. Seus pais ficaram apavorados e por isso trocaram várias vezes de médico, na esperança de um diagnóstico correto que pudesse salvar sua vida, mas ela não se recuperava, eles não descobriam o que ela tinha, nada adiantava.
Já sem esperanças corri por um matagal que fazia frente a nossa casa, e só parei quando caí de peito a margem do rio que cruzava nossa cidade. Era tarde da noite, então instintivamente levantei os meus braços para o céu e sem entender o que falava gritei para o universo:
– Atotô meu Pai Omulu!
– Vós que tem o poder sobre todas as moléstias, vinde em socorro de minha amada Vera!
– Vós que tem a maior de todas as magias, detenha qualquer outra que possa ter atingido minha mulher, e sem compaixão, que vossos servos devolvam a demanda a quem pertence de direito.
Em prantos e com os joelhos enterrados na lama, observei que várias pessoas cobertas por um manto escuro e um capuz, disseram em coro:
– Assim será feito!
Depois de sair do transe, fiquei ainda algum tempo sentado a beira do rio e achei que tudo aquilo não passara de uma alucinação.
Era alta madrugada quando voltei para casa e qual foi minha surpresa ao encontrar Vera sentada na cadeira de balanço, apreciando a lua que se mostrava em sua plenitude.
Depois desse dia, nossa vida se modificou e virou parte da nossa rotina ir nos dias de lua cheia, até a beira do rio reverenciar e agradecer o que chamávamos de os espíritos do rio.
Muitos anos se passaram, e além dos filhos e netos maravilhosos, tivemos uma vida repleta de momentos felizes e inesquecíveis. Agora era eu que velho e cansado, na cama esperava pelo momento de partir deste mundo. Minha companheira de sempre não se ausentava do meu lado, dando o conforto que meu espírito necessitava, porém, ela não notara o entrar daquele visitante, coberto por um capuz e por um manto negro;
….. ele tomou minha mão, me levantou, e me cobriu com um manto negro igualzinho ao dele, e disse:
– Vamos embora meu irmão!
– Hora de voltar para casa e assumir seu lugar ao meu lado novamente.
– Bom trabalho!
– Laroiê Exu!

Psicografado por: Cristina Arante (04/10/2010)
Laroiê Exu Caveira!

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