DEPRESSÃO

Acordei repentinamente e não consegui segurar a cabeça que desceu sobre meu peito, quase tocando o ombro do homem que estava sentado a minha frente. Constrangido disfarcei, mas pude observar que ninguém tinha visto meu cochilo involuntário. Havia uma dezena de pessoas esperando para ser atendido no consultório médico, certamente a demora e a musiquinha ambiente me induziram ao sono, bem…., essa tem sido minha rotina nos últimos quinze anos, acompanhar minha esposa Tina nas consultas a psiquiatras em busca de uma solução que a livre da depressão. Depois de cada nova consulta , surgia uma nova esperança, e lá íamos nós com a receita em mãos acreditando que agora Tina seria curada dessa doença tão destrutiva.
Apesar do tempo de luta, jamais perdemos a esperança de cura, mas confesso me cortava o coração ver minha mulher tomar todos os dias aquele coquetel de drogas, e em seguida ficar como que anestesiada, e insensível diante das mais variadas e corriqueiras situações.
A depressão é um distúrbio que incapacita quase que totalmente o doente, mas atinge principalmente a família e todos que estão ligados a ele. Chega uma hora, a gente começa a se cansar, não desiste, mas começa a desacreditar dos remédios e também dos profissionais médicos que se tornam repetitivos, e exigentes numa tomada de posição do doente, bem……de certa forma transferem a responsabilidade da cura para o paciente, exigindo uma retomada e energia que o paciente não possui.
Em 2008, havia dois anos que tínhamos iniciado um trabalho de Umbanda em nosso apartamento. Todas as sextas-feiras, improvisadamente, montávamos nosso Congar, comprávamos flores, e recebíamos alguns amigos que nos ajudavam com a gira. Nesse especial momento de nossa vida, Tina continuava a ter crises de depressão, mas sempre que isso acontecia, Pai João aparecia em seu socorro e a deixava super bem por alguns dias.
Era 23 de outubro de 2010. Nessa sexta-feira, como de costume, Tina se concentrava na montagem do Congar, e eu debruçado na sacada da sala, contemplava a beleza da lua, que nessa noite se mostrava radiante, iluminando todos os cantos do jardim em torno do prédio. Uma brisa perfumada entrava pela janela e fazia com que as chamas das velas se agitassem como que em festa, celebrando o inicio dos trabalhos.
As vinte horas em ponto iniciamos nossa gira, e como sempre acontecia, Pai João desceu e dedicou algum tempo na recuperação de Tina, que não conseguia disfarçar a tristeza estampada no olhos. Ainda nesse dia, depois de todos atender, Pai João despedia-se quando Tina levantou-se repentinamente e chorando disse a pai João que não conseguia mais suportar a dor que a depressão lhe causava. Pai João, que caminhava para frente do congar, parou, ficou pensativo, deu algumas baforadas no cachimbo, e voltando a frente de Tina disse com lágrimas nos olhos:
-minha querida sinhazinha,
-dentre todos que aqui estão, você foi a que mais se preparou, estudou e demonstrou ter muita fé em nosso Pai Olorum;
-chegou a hora da sua libertação;
-eu pedi a um amigo que venha ainda hoje lhe ajudar;
-confie…..apenas …..confie.
Em seguida Pai João, juntamente com todos os que o acompanhavam, partiram rumo a Aruanda.
Ainda naquela noite, conhecemos pela primeira vez o Sr. João Baiano, que nos encantou com sua prosa e grande conhecimento. Interagiu com todos os presentes com irreverencia e singular linguajar , nos ensinou a orar a Nosso Senhor do Bonfim, e antes de subir deu a Tina uma guia de contas, a qual não deveria mais ser retirada do pescoço, e lhe falou em bom baianês:
-mãeinha…minha querida mãeinha…
-este baiano veio lhe trazer a libertação…
-chega de sofrer…né não?………o seu trabalho começa agora…
…e antes de subir deu um beijo na testa da Tina, que chorava compulsivamente.
Daquele dia em diante, Tina nunca mais tomou nenhuma droga, seus olhos ganharam um novo brilho, e a alegria se fez uma constante em sua vida.
Não quero com esta estória incentivar ninguém a abandonar os remédios, coisa que não se deve fazer, mas até hoje, os psiquiatras não conseguem explicar como alguém que toma um coquetel com cinco drogas controladas, simplesmente parar do dia para a noite, não sofrer pela abstinência, e se curar totalmente.
Passados alguns anos, Tina ainda traz no pescoço a guia de contas que Sr. João Baiano lhe deu, e toda vez que esse Pai baixa em nossa gira, sorri ao toca-la com as mãos.

Salve o Povo da Bahia!! Salve Sr. João Baiano!!
Por: Wilson de Omulu

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Sobre atabaque26

Nosso pequeno grupo de Umbanda, tem como principal objetivo pesquisar e aprender com nossos amigos espirituais, sendo a verdade e seriedade conduta obrigatória em todos os membros da nossa gira. Saravá Caboclo Rompe Mato.
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2 respostas para DEPRESSÃO

  1. Marília Russi de Carvalho disse:

    Hoje li a história que eu já conhecia, mas não deixei de me emocionar .É preciso passar por uma depressão, por psiquiatras, medicamentos,etc, até chegar a umbanda e
    compreender e admirar a força dessa religião.

  2. anapatricia32 disse:

    Hoje eu sou a Tina. Será q terei merecimento de ser liberta desse cativeiro?

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