Aconteceu no Natal

ACONTECEU NO DIA DE NATAL   OMOLU1

Sentado na varanda, posso ver o quintal gramado iluminado pela lua que se exibe exuberante, majestade sentada no céu, parece capaz de ouvir meus pensamentos. Nesses momentos de solidão a gente é capaz de perceber detalhes de fundo que nunca tinha notado existir, na verdade, é impressionante como a vida é intensa nesse pedaço de chão. O silêncio é acolhedor e me permite calar por algum tempo as vozes em minha cabeça, e ouvir natureza vibrando ao meu redor, refletindo luzes coloridas, por causa da garoa que cai e molha as folhas das plantas continuamente. Permaneço sentado no banquinho de cedro, e volto a pensar no ano difícil que tivemos aqui em casa. O trabalho no terreiro foi cansativo, mas cada gota de suor valeu a pena pelas muitas maravilhas que pudemos presenciar, e pelos resultados positivos que obtivemos através de nossos abençoados trabalhadores. Cada gira, cada ebó, cada festa, tudo que fizemos foi muito gratificante. Poder ter compartilhado da alegria dos que foram curados, daqueles que encontraram o caminho, ou deram rumo às suas vidas, não teve preço tal sentimento, pois isso sim alimentou meu espírito e me deu forças para persistir nessa missão ano após ano.
Os trabalhos no terreiro foram encerrados este ano, e aqui estou eu novamente, sentado na varanda, com olhos no infinito, e viajando nas lembranças que se misturam na cabeça. Há cerca de um ano não vejo minha família, e acredito que conviver com essa tristeza todos os dias tem sido meu maior desafio. A saudade é dolorida, sufoca o meu peito e por vezes choro compulsivamente, mas nunca perdi a esperança de reencontrar algum dia minha esposa e filhos. Mas o ano findou, e os trabalhos no terreiro foram suspensos, agora sinto medo da solidão, pois sempre termino o dia aqui nesta mesma varanda, perdido em meus pensamentos, que por vezes parecem sem sentido.
Uma luz forte surge no fundo do quintal e chama minha atenção. A luz multicolorida e girando em torno de si própria parece abrir um grande buraco na escuridão. Não consigo desviar meus olhos de tamanha beleza, meu corpo fica imóvel, enquanto do interior da luz vários guardiões vestindo capa com capuz, vão formando um corredor até minha varanda. Uma mistura de medo e admiração me mantém imobilizado, e nesse momento uma figura surge ao centro, todo coberto por palhas e fitas, espalha luzes para todos os lados enquanto caminha em minha direção. Não sinto mais medo, agora sinto uma felicidade inexplicável, mas perco os sentidos quando aquela figura maravilhosa toca minha cabeça.
Com certa dificuldade vou abrindo os olhos, e aos poucos recuperando a visão, não tenho a menor idéia de quanto tempo fiquei desacordado, as imagens vão tomando forma vagarosamente, e em minha volta posso agora ver minha esposa e filhos sorrindo de uma maneira que jamais irei esquecer. Não consigo conter o choro e abraçados ficamos assim por algum tempo, calados, apenas abraçados e agradecendo a Olorum por nos unir novamente. Minha esposa toma meu rosto com as duas mãos, beija meus lábios e olhando nos meus olhos me diz:
– Seja bem vindo, meu querido,
– Você esteve em coma por um ano, e Deus não poderia nos dar melhor presente no dia de Natal,
– Jamais desistimos de você, e estivemos ao seu lado por todo esse tempo.
Isso aconteceu há muitos anos atrás. Hoje estou velho, sentado na mesma varanda olho para o fundo do quintal e lembro daquele dia em detalhes. Foi de lá que veio meu pai Omulu em meu socorro. Era dia de Natal, hoje é dia de Natal!!!….. A ceia será farta, como todos os anos que se sucederam, o quintal já está enfeitado com velas, flores e cestas com pipoca.
Aconteceu no Natal………. Jamais perca a sua fé.
Atotô, meu Pai Omulu!!!
Por: Wilson de Omulu

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O MISSIONÁRIO

OBALUAELá estava eu novamente sentado na sala de espera do pronto socorro do hospital público, observando as pessoas passarem de um lado para outro, com certeza cada um com sua estória de dor. Não tenho pressa, devo manter a calma e esperar as coisas acontecerem. Devo ter viajado nos pensamentos algum tempo pois, não percebi o casal sentados na beira do banco duro. Parecem muito tristes, e dividem a forças num abraço apertado, molhado pelas lágrimas misturadas de ambos. Me apoio nas mãos e deslizo no banco para perto deles:
>será que eu poderia ajudar vocês de alguma forma? A resposta da mulher foi rápida..
não. Não há nada que possa fazer por nós..
>Alguem da família está internado aqui?
sim, nossa filhinha ficou doente, e temos que vir aqui com frequência para que ela possa receber os medicamentos, estamos perdendo a esperança ,pois ela parece piorar a cada dia,…e o senhor?….espera demorada para ser atendido?
> Ha cerca de um ano eu estava sentado neste mesmo banco, desanimado do tratamento que recebia, porque eu me sentia cada vez mais debilitado., até que um dia um homem sentou-se aqui do meu lado e começamos a conversar.  Depois de algum tempo percebi que só eu tinha falado, mas confesso me senti bem melhor. Quando permiti, ele falou que trabalhava em um templo de umbanda e que ficaria muito feliz se eu fosse até lá , pois com certeza eu iria encontrar a ajuda necessária para o meu restabelecimento. Eu havia pensado em todas as alternativas imagináveis, tomei todo tipo de chá de ervas, as mais exóticas, viajei para consultar os maiores especialistas, porém sem resultados positivos!….inconcebível portando para um homem como eu visitar um templo de umbanda!, ….mas ele insistiu, e perguntou o que eu tinha a perder? Subitamente o gentil cavalheiro levantou-se, colocou um papelzinho na minha mão suada, deu um sorriso marcante, e falou que estaria esperando por mim. Nos dias que se seguiram minhas dores aumentaram me impedindo de fazer coisas importantes, aquelas, que dão sentido a minha vida. Passei diversos dias e noites acordado, conflitando com meus conceitos de vida, tentando arrumar forças e coragem para pegar aquele pedaço de papel e ir até o templo de umbanda que aquele desconhecido simpático me dera.
e aí o senhor foi?
> sim, eu fui…..graças a Deus, eu fui…..
estão demorando para atender o senhor….não é mesmo?
> eu não estou esperando para ser atendido……já posso ir embora,…… antes porém, queira dar a vocês este pequeno pedaço de papel…..estarei esperando por vocês….

Por: Wilson de Omulu

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A CAVEIRA SEGURAVA UMA ROSA AMARELA

Minha estória começa onde minha vida passa a fazer sentido e minha memória me permite lembrar, acredito que por volta dos meus nove anos.

De origem muito humilde eu era a caçula das oito irmãs que compunham a família de mestre Pedro e Iara, trabalhadores da terra, tinham permissão do senhor feudal para tirar daquele pedaço de chão o sustento das filhas. Nas horas em que não estava no campo, papai que tinha herdado de vovô grande habilidade em fundir metais, fabricava facas, punhais e espadas especiais que depois de prontas eram enviadas ao senhor dos campos, que presenteava os importantes do reino.

Todas as manhãs eu acordava com o som dos pássaros e o cheiro forte do café que mamãe acabara de passar no bule enorme, a preguiça me fazia esticar o corpo, mas eu permanecia deitada por mais algum tempo,  apreciando a natureza pela minha janela que mais parecia um quadro pintado, com certeza pelo criador dos mundos.  Aos nove anos de idade, eu desconhecia os problemas que meus pais tinham, e todos os dias, depois de ajudar nos afazeres de casa, corria para o campo junto com as crianças da vila, inventando todo tipo de brincadeiras, caçando borboletas, e a tardinha tomava banho no rio antes de voltar para casa.

Eu tinha completado quinze anos a poucos dias, naquela tarde de junho tive meu sono interrompido pelo gritos de papai ordenando que as portas e janelas dos quartos fossem trancados. Homens do Arcebispo chegaram a galope, como que tentando surpreender os moradores, que morriam de medo dos soldados, tamanha a brutalidade com que tratavam os colonos. Não sabíamos o que estava acontecendo, mas dava para se ouvir papai argumentando aos gritos sobre algo que nem imaginávamos iria alterar o rumo das nossas vidas. A porta do quarto foi derrubada e eu tomada pelos braços a força, fui arrastada para fora de casa e colocada sobre a cela de um cavalo, que pude notar tinha a marca do senhor dono de todas as terras. Minha cabeça doía muito, o medo era insuportável, virei a cabeça enquanto partíamos e pude ver que meus pais estavam imóveis, sentados na varanda de ramos, mais tarde soube que minhas irmãs foram vendidas como escravas para mercadores que vinham de terras além mar. Eu tinha crescido, tornei-me mulher e era muito comum naquele tempo os senhor dos campos arrancar de seus lares meninas bonitas, e transforma-las em damas de companhia e amantes dos homens de confiança do senhor das terras. Minha vida passou a ser um pesadelo, pois era obrigada e servir de todas as formas aqueles que destruíram minha família, mas confesso que o desejo de vingança me permitia sobreviver e esperar paciente o momento de dar o troco. Minha beleza era minha grande arma,  aprendi a usar meu charme, e transitava pelos corredores do palácio a qualquer hora, sempre cortejada pelos moradores ilustres e visitantes que vinham de outros reinos. A velha duquesa e esposa do Senhor das terras, pouco aparecia, mas quando o fazia, sempre de posse de uma rosa vermelha nas mãos, não disfarçava seu desprezo por mim, como forma de provocação eu me apresentava com uma rosa amarela, sinônimo de disponibilidade.

Na festa de 15 anos da única filha do Senhor e Duque, a movimentação era intensa para que nada saísse errado. Quando o sol se pôs, o salão estava cheio, a música e danças animavam os presentes que aguardavam os anfitriões. Caminhava eu rumo a festa, quando cruzei com a aniversariante no corredor. Linda, ela segurava uma rosa vermelha e eu como de costume trazia uma rosa amarela. Vi nesse momento uma oportunidade de incomodar a duquesa, então sugeri a menina que trocasse sua rosa vermelha pela minha amarela que era muito mais vistosa, o que ela aceitou de pronto. Quando entramos no salão alguém abordou a menina e lhe serviu uma bebida,  timidamente tragou o líquido num só gole, a Duquesa que de longe observava, saiu correndo aos gritos em direção da filha, chamando a atenção de todos que não conseguiam compreender aquele gesto incomum. Ela abraça a filha que desfalece, e morre em seus braços. A duquesa se aproxima de mim e diz que eu tinha matado sua filha e ordena que eu seja presa imediatamente. Condenada a morrer de fome, fui levada ao calabouço, onde fui acorrentada a parede, de frente a um espelho,  para que eu pudesse ver minha morte. Para prolongar meu sofrimento apenas uma dose de água me era servido todos os dias. Depois de passados muitos dias eu já não sentia fome, pude ver minha beleza se transformando em algo horrendo, até que sem forças, olhei para o espelho pela  última vez e vi apenas a imagem de uma caveira segurando uma rosa amarela em uma das mãos, eu estava livre enfim……

Laroiê Rosa Caveira

Por: Mãe Cristina de Iansã

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AFINAL….. É TUDO MARMOTA?

Atualmente é muito comum  as pessoas se utilizarem desse adjetivo, para definir como falsa algum tipo de gira ou mesmo a performance de alguns médiuns. A pessoa vai visitar um terreiro, assiste a gira com entusiasmo, bate palmas, sorri, consulta o chefe de terreiro, sai e diz: é pura marmota!, ou diz que o pai de santo é marmoteiro.

Marmoteiro….Marmoteiro….Marmoteiro……!!!!…em coro… Alguns são mais discretos e dizem: “Isso não tem nada a ver!! bem……”nada tem a ver”, quer dizer que é marmota. Os comentários pejorativos desses críticos e especialistas em gira, são muito mais cruéis com os trabalhos de esquerda,  muito bem…..vamos tentar entender os possíveis motivos:

Nos últimos anos surgiram na Umbanda diversos grupos ou vertentes dela, que buscaram de alguma forma “codificar” a religião, criando alguns pseudos manuais que passaram a servir de referencia para muita gente. Sem a intenção de generalizar, o possível motivo desses movimentos, deve-se ao fato de oportunistas que perceberam a falta de literatura abordando o assunto e vislumbraram a possibilidade de transformar isso num negócio. Nossos queridos Exus foram as maiores vítimas, pois criaram um novo perfil para Eles, sendo que hoje tem Exu, acreditem,  pregando a bíblia com destreza!, outros participam de grupos de discussão e educadamente explanam sobre todos os assuntos relativos a religião. Surgiram muitos cursos específicos de Exu, alguns sérios outros nem tanto, onde  ensinam a  compreender esse novo perfil e como doutrina-los, um verdadeiro absurdo. Como fica aquele Exu que sobe lá no terreiro de Mãe Maria do beco? Hum…..problemas a vista, pois Ele fala palavrões, ri alto, bebe cachaça, mas incrivelmente faz verdadeiros milagres!, bem.. podes crer…..vão dizer: é marmota! pois esse Exu está desatualizado porque difere das novas “regras de conduta”.

Concluindo, não devemos esquecer que Exu é acima de tudo um transgressor que nos coloca de frente com nossas fraquezas, toca nas  feridas, nos confunde na maioria das vezes, e ri muito da nossa ignorância. Antes de sair por aí julgando e criticando a gira dos terreiros mais conservadores, deveriam se perguntar, quem os credenciou a serem donos da verdade, e se não são eles, marmoteiros inconscientes, devidamente atualizados.

Sr. Tranca Ruas das Encruzilhadas uma vez me disse: Não importa o lugar e em que condições  você me encontre, …… bata  cabeça.

Por: Wilson de Omulu – Laroie Mestre Tranca Ruas

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A PROTETORA

Evidentemente que não me lembro, mas conta minha irmã doze anos mais velha que eu, que quando nasci a parteira torceu o nariz diante diante da minha feiura. Ninguém conseguia compreender como uma mulher linda como minha mãe podia ter gerado uma criança tão estranha como eu. Diziam as más línguas da comunidade do morro, que minha mãe tinha sido castigada por viver acendendo velas no cruzeiro do cemitério. Eu fui crescendo e aos sete anos de idade já ajudava mamãe no terreiro que ela mantinha no fundo do nosso barraco e apesar da pobreza evidente a nossa volta, toda quinta-feira a viela ficava lotada de carrões brilhantes das pessoas que vinham em busca de ajuda. Mamãe, vestida com rendas brancas e azuis a todos atendia estampando um sorriso mágico. Muitas das pessoas que por ali passavam, traziam alimentos e quando a gira terminava agradecíamos a Deus pela comida abençoada, porque mamãe não aceitava dinheiro de ninguém, pois segundo ela Deus saberia a hora certa de nos retribuir.
Aos dez anos de idade, eu freqüentava o grupo escolar da prefeitura e mesmo sofrendo todo tipo de preconceito pela minha aparência incomum, tirava as melhores notas da classe, apelidos não me faltavam, mas confesso que ser conhecido como monstrinho me magoava profundamente, mas mamãe sempre enxugava minhas lágrimas e me convencia do meu real valor. Minha irmã jamais me defendeu, mas por incontáveis vezes mamãe foi a escola e brigou com todo mundo por mim, no final como sempre fazia, me tomava nos braços, eu trançava as penas em sua cintura, ela me enchia de beijos e depois abraçados íamos de volta para casa.
Os anos se passaram e aos vinte e três anos eu havia perdido o movimento das pernas, mas mesmo assim com muito sacrifício me preparava para receber o diploma do magistério, para a alegria de mamãe que não se continha de felicidade, enquanto empurrava minha cadeira de rodas pelos corredores da escola.
Três anos depois, mamãe adoeceu e para minha tristeza partiu deste mundo, deixando um vazio insuportável. Eu passava horas olhando para o terreiro que mamãe tanto adorava, e ficava lembrando dos toques, das danças e do sorriso lindo que sempre enfeitava o rosto lindo daquela mãe de santo, que por acaso era a pessoa que eu mais amava neste mundo. Os tempos que se seguiram foram difíceis, e aos quarenta e dois anos de idade fui vencido pela minha doença degenerativa, adormeci e acordei no terreiro de mamãe, em pé frente ao congar, depois fui conduzido até a frente dos portões da calunga pequena, onde três homens usando capa e capuz, imóveis pareciam me observar. Não posso imaginar quanto tempo fiquei ali parado, pode ser horas, talvez dias, afinal que importância tinha isso, parado ali eu me sentia leve, pleno, feliz. O ranger alto do portão se abrindo espanta dezenas de pássaros, que em revoada se confundem as folhas que caem das árvores arrancadas pelo vento forte, por um momento não consigo ver o que está acontecendo, quando recupero a visão noto que alguém caminha em minha direção. Usando uma capa vermelha e preta, caminha com delicadeza, na mão direita traz um cajado preto, o capuz cobre totalmente seu rosto fazendo com que eu sinta uma mistura de medo e curiosidade, para em minha frente, e levanta o capuz de fundo vermelho e revela o sorriso lindo de mamãe. Um abraço forte dispensa palavras, toma então minhas mãos e juntos caminhamos em direção ao cruzeiro.

Laroie Rosa Caveira,

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DEPRESSÃO

Acordei repentinamente e não consegui segurar a cabeça que desceu sobre meu peito, quase tocando o ombro do homem que estava sentado a minha frente. Constrangido disfarcei, mas pude observar que ninguém tinha visto meu cochilo involuntário. Havia uma dezena de pessoas esperando para ser atendido no consultório médico, certamente a demora e a musiquinha ambiente me induziram ao sono, bem…., essa tem sido minha rotina nos últimos quinze anos, acompanhar minha esposa Tina nas consultas a psiquiatras em busca de uma solução que a livre da depressão. Depois de cada nova consulta , surgia uma nova esperança, e lá íamos nós com a receita em mãos acreditando que agora Tina seria curada dessa doença tão destrutiva.
Apesar do tempo de luta, jamais perdemos a esperança de cura, mas confesso me cortava o coração ver minha mulher tomar todos os dias aquele coquetel de drogas, e em seguida ficar como que anestesiada, e insensível diante das mais variadas e corriqueiras situações.
A depressão é um distúrbio que incapacita quase que totalmente o doente, mas atinge principalmente a família e todos que estão ligados a ele. Chega uma hora, a gente começa a se cansar, não desiste, mas começa a desacreditar dos remédios e também dos profissionais médicos que se tornam repetitivos, e exigentes numa tomada de posição do doente, bem……de certa forma transferem a responsabilidade da cura para o paciente, exigindo uma retomada e energia que o paciente não possui.
Em 2008, havia dois anos que tínhamos iniciado um trabalho de Umbanda em nosso apartamento. Todas as sextas-feiras, improvisadamente, montávamos nosso Congar, comprávamos flores, e recebíamos alguns amigos que nos ajudavam com a gira. Nesse especial momento de nossa vida, Tina continuava a ter crises de depressão, mas sempre que isso acontecia, Pai João aparecia em seu socorro e a deixava super bem por alguns dias.
Era 23 de outubro de 2010. Nessa sexta-feira, como de costume, Tina se concentrava na montagem do Congar, e eu debruçado na sacada da sala, contemplava a beleza da lua, que nessa noite se mostrava radiante, iluminando todos os cantos do jardim em torno do prédio. Uma brisa perfumada entrava pela janela e fazia com que as chamas das velas se agitassem como que em festa, celebrando o inicio dos trabalhos.
As vinte horas em ponto iniciamos nossa gira, e como sempre acontecia, Pai João desceu e dedicou algum tempo na recuperação de Tina, que não conseguia disfarçar a tristeza estampada no olhos. Ainda nesse dia, depois de todos atender, Pai João despedia-se quando Tina levantou-se repentinamente e chorando disse a pai João que não conseguia mais suportar a dor que a depressão lhe causava. Pai João, que caminhava para frente do congar, parou, ficou pensativo, deu algumas baforadas no cachimbo, e voltando a frente de Tina disse com lágrimas nos olhos:
-minha querida sinhazinha,
-dentre todos que aqui estão, você foi a que mais se preparou, estudou e demonstrou ter muita fé em nosso Pai Olorum;
-chegou a hora da sua libertação;
-eu pedi a um amigo que venha ainda hoje lhe ajudar;
-confie…..apenas …..confie.
Em seguida Pai João, juntamente com todos os que o acompanhavam, partiram rumo a Aruanda.
Ainda naquela noite, conhecemos pela primeira vez o Sr. João Baiano, que nos encantou com sua prosa e grande conhecimento. Interagiu com todos os presentes com irreverencia e singular linguajar , nos ensinou a orar a Nosso Senhor do Bonfim, e antes de subir deu a Tina uma guia de contas, a qual não deveria mais ser retirada do pescoço, e lhe falou em bom baianês:
-mãeinha…minha querida mãeinha…
-este baiano veio lhe trazer a libertação…
-chega de sofrer…né não?………o seu trabalho começa agora…
…e antes de subir deu um beijo na testa da Tina, que chorava compulsivamente.
Daquele dia em diante, Tina nunca mais tomou nenhuma droga, seus olhos ganharam um novo brilho, e a alegria se fez uma constante em sua vida.
Não quero com esta estória incentivar ninguém a abandonar os remédios, coisa que não se deve fazer, mas até hoje, os psiquiatras não conseguem explicar como alguém que toma um coquetel com cinco drogas controladas, simplesmente parar do dia para a noite, não sofrer pela abstinência, e se curar totalmente.
Passados alguns anos, Tina ainda traz no pescoço a guia de contas que Sr. João Baiano lhe deu, e toda vez que esse Pai baixa em nossa gira, sorri ao toca-la com as mãos.

Salve o Povo da Bahia!! Salve Sr. João Baiano!!
Por: Wilson de Omulu

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OS NETOS DE VOVÓ BENEDITA

Sentado no chão, eu ficava olhando aquele armário com portas enormes, feito de pura madeira trabalhada, tinha uma cor estranha, quase preto, vovó dizia que tinha pertencido a um coronel dono de muitas fazendas no interior de São Paulo. Duas janelas de vidro, já com sinais de velhice, possibilitava ver louças, utensílios, raízes secas e outras coisas que vovó utilizava para fazer suas mandingas e curar aquele monte de gente que a procurava todos os dias. Sabe….. nos meus nove anos de vida, não me lembro de ver outra pessoa abrir aquele armário, que não fosse a vovó Benedita. Minha prima Luiza já tinha dezesseis anos e ajudava vovó todo dia a receber as pessoas, eu achava ela meio chata porque ficava cantando uma música estranha enquanto fumaçava a casa todinha, até o casal de gatos rajados caiam no sono depois de todo aquele fumacê, também pudera né?……

Lá pelas nove da manhã, Luiza abria a tramela da janela rangente de duas folhas que iam até o teto, e eu podia ver aquela gentarada esperando do lado de fora. Sentada num toco de amoreira, vovó recebia um por um daquela gente toda, conversava com todos, enquanto Luiza que não desgrudava do ladinho dela, ia misturando coisas, socando no pilão, e depois punha toda aquela mistura num saquinho de pão, e dava para a pessoa levar. Naquela época eu não entendia o que vovó fazia, e muitas das vezes me perdia em pensamentos brincando com os gatos preguiçosos, que corriam assustados quando vovó batia a bengala no chão, e fazia sinal para que eu ficasse quieto. Vovó como ela mesma dizia, apesar de pobre, era uma mulher letrada, tinha estudado em escola de freiras, super prendada, tocava bandolim aos finais de semana. Bem….. o tempo foi passando, vovó mantinha sua rotina, e eu fui crescendo e compreendendo melhor a missão daquela vovozinha de cabelos brancos e sorriso ingênuo.

Um certo dia para nossa tristeza, vovó nos deixou e voltou para sua casa na terra do nosso pai Olorum. Era uma Quarta-feira do mês de Agosto, havia passado duas semanas do desencarne da vovó, e Luiza como de costume, abriu a janela rangente de duas folhas, e lá estava o povo esperando para ser atendido. Durante uns dez minutos, Luiza permaneceu em pé observando a fila de pessoas do outro lado da cerca de bambu, e pela primeira vez a vi sorrir, momento em que colocou um lenço na cabeça, sentou-se no toco de madeira e falou:

– Fique do meu lado, meu primo! Estamos prontos!

– Tome, fique com a chave do armário grande….. agora ela é sua.

– Vamos continuar o trabalho da vovó.

Meu coração bateu forte, e a falta da velhinha de cabelos brancos, fez eu sentir uma tristeza repentina. Tomei então meu lugar ao lado de Luiza, e não consegui conter as lágrimas ao ver que sentado no chão de tijolo vermelho, meu filho de cinco anos brincava descontraído com dois gatinhos rajados.

Adorei as Almas meu querido Pai João!

Por: Wilson de Omulu

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